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Luta Contra o Nuclear

Memória Descritiva

Ferrel, a Capital da Luta Contra o Nuclear

“Não é apenas uma luta contra o imperialismo americano, é contra o imperialismo ideológico e tecnocrático. Ao descobrir que o electronuclear é o electroterror está dado o salto dialético entre a revolução económica e a revolução cultural; com a luta do povo de Ferrel contar ver qual é o partido que se em Portugal a Revolução Cultura, quer dizer, a Revolução Ecológica; esperemos que ajude a outra a não estagnar de todo.” 

Afonso Cautela, in O Século, 1 de abril de 1976, p.7.

O ano 2018 reveste-se de grande simbolismo para a História do Povo de Ferrel, porque comemora-se o 40º aniversário do «I Festival Pela Vida e Contra a Central Nuclear». Simultaneamente, por proposta da Comissão Europeia, o Parlamento Europeu adotou a decisao de estabelecer o ano 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural.

No contexto atual de globalização e massificação da cultura, de crise de valores e de identidade a Junta de Freguesia de Ferrel atribui ao Património Cultural um papel importante para a sociedade e para o desenvolvimento sustentável. Por isso, a denominação/marca «Ferrel, a Capital da Luta Contra o Nuclear» insere-se numa estratégia local de desenvolvimento inspirada na herança histórica do Povo de Ferrel.

Numa lógica de valorização do território, o Património e a História inspiram a criatividade, interligando o Passado, o Presente e o Futuro. Uma História única no Mundo, um motivo de orgulho para todos os ferrelejos que gera de sentimentos de pertença, contribui para a autoestima e para a construção de uma identidade local.

A marca «Ferrel, a Capital da Luta Contra o Nuclear» é corolário de diversos acontecimentos que marcaram a História dos Movimentos Socias em Portugal e, também, a História do Movimento Ecologista Português. Trata-se de um justo reconhecimento ao Povo de Ferrel, pela sua união e mobilização face à ameaça nuclear, como afirma  Henri Baguenier “Sem a mobilização social a restante movimentação técnica e económica não tinha conseguido dissuadir o Governo”.

ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

 

«A POPULAÇÃO DE FERREL APOIADA POVO CONCELHO PENICHE E CONCELHOS LIMITROFES (ÓBIDOS, BOMBARRAL, CALDAS, LOURINHÃ E TORRES VEDRAS) PROTESTAM CONTRA INSTALAÇAO CENTRAL NUCLEAR E LUTARA POR TODOS OS MEIOS LEGAIS CONTRA SUA CONSTRUÇAO – COMISSAO DE MORADORES DE FERREL»”

Comunicado [À População], Moinho Velho, 15 de março de 1976

A proposta para a certificação da marca Ferrel, a Capital da Luta Contra o Nuclear baseia-se no movimento social protagonizado por este povo, nomeadamente uma ação coletiva motivada pela instalação de uma central nuclear para a produção de energia elétrica nos terrenos a norte da povoação. A manifestação popular de 15 de março de 1976 e os momentos de contestação social que se seguiram fazem parte do património histórico e da memória coletiva deste povo.

Em março de 1976 vivia-se um período pós-revolucionário e pré-eleitoral. A instauração da Democracia através da nova ordem jurídica, a Constituição da República Portuguesa aprovada a 2 de abril de 1976 aprovada pela Assembleia Constituinte. As primeiras eleições democráticas do dia 25 de abril de 1976, das quais resulta o I Governo Constitucional (1976-1978) constituído pelo Partido Socialista e chefiado por Mário Soares. A prioridade declarada por este Governo foi «vencer a crise, reconstruir o País». 

Durante os anos conturbados da democratização, Ferrel liderou a Luta antinuclear em Portugal. Desta forma, desempenhou um papel importante na História dos movimentos ambientalistas e no despertar de uma consciência ecológica na sociedade portuguesa contemporânea.

Os primeiros trabalhos para instalação da  central nuclear tiveram início em 1975, nos terrenos do Moinho Velho, sem que se soubesse muito bem do que se tratava e o que era uma central nuclear. O jornal local A Voz do Mar, na edição do dia 20 de março de 1975, avança com a possibilidade de que os trabalhos de fundações e prospeção naquele local se destinavam à construção da central.  Refere ainda que os Estudos desenvolvidos pela Companhia Portuguesa de Eletricidade (C.P.E.) têm por finalidade a construção da central para produzir eletricidade e, desta forma, possibilitar a autonomia energética e a produção de eletricidade com baixo custo.

Na edição do dia 5 de fevereiro de 1976, em declarações prestadas ao jornal A Voz do Mar, Carlos Mota, o Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Peniche, revela que a C.P.E. estava a realizar estudos no local da instalação da central e já avançou com pedido preliminar para a construção . Surgia assim o “primeiro conflito ambiental da democracia” .

«Tracei então um plano a levar a efeito com três pontos essenciais: primeiro informar a população e convencê-la a entrar na luta; segundo organizar uma acção de revolta pacífica, mas enérgica, no local das obras, que fizesse eco a nível nacional; e em terceiro lugar aproveitar as consequências dessa acção para continuar a luta devidamente organizada com o apoio de pessoas e entidades idóneas e conhecedoras do problema da energia nuclear e estender a mesma luta a nível nacional.»

Testemunho de Joaquim da Silva Jorge, membro da Comissão de Moradores de Ferrel e da CALCAN, Ferrel, 2016.

 “(…) o motor de arranque de toda esta acção reside na Comissão de Moradores de Ferrel. Na sequência de várias reuniões são enviados telegramas 5 de março 1976; Dia 14 uma reunião com a população que decide a imediata suspensão dos trabalhos preliminares em curso com vista à construção da central.” 

A Voz do Mar, Ano XX, Nº458, Peniche, 18 de Março de 1976, p.1 e 8.

Na manhã do dia 15 de março de 1976 o sino da igreja da Nossa Senhora da Guia toca a rebate. A população inunda o largo da igreja e munida de varapaus, enxadas e forquilhas avança a pé, de carroça, de burro, de trator e camionetas para o local onde já estavam a decorrer os trabalhos para a instalação de uma central nuclear.

Joaquim da Silva Jorge recorda os momentos da chegada da população ao Moinho Velho: « Por volta das oito horas foi dada a voz de partida: “Todos ao Moinho Velho!”… A grande maioria a pé, outros de burro, de carroça e ainda de tractor, de carrinhas e camionetas… Tudo servia para chegar ao Moinho Velho levados pelo entusiasmo e pela ânsia de ver afastado o perigoso fantasma da central nuclear.

Apesar do estranho aparato “bélico”, a chegada ao local foi calma e a actuação do povo foi ordeira e pacífica. Os operários assustaram-se e alguns quase entraram em pânico, mas felizmente nada de grave aconteceu… O pior que observámos e ouvimos foi alguém da população mais enervado ter mandado os operários para o ”pai deles”. Quando chegámos já lá estava a G. N. R. que foi intermediária nas negociações que se seguiram. O povo, pelos seus porta-vozes, apresentou o ultimato ao responsável das obras: “As obras são para parar imediatamente e não pensem em recomeçá-las!”» 

A população de Ferrel expressa num Comunicado [À População], assinado pela População de Ferrel reunida em 15 de março de 1976 no Moinho Velho, os motivos da contestação e os inconvenientes da Central Nuclear para o concelho de Peniche, “dos quais se destacam a poluição do meio ambiente com graves perigos para a saúde (…), morte de espécies marinhas (…), afectando assim as importantes actividades agrícolas e piscatórias, aumento da dependência económica e política do nosso País em relação ao País vendedor da Central e ao que irá preparar o urânio para o seu funcionamento. São largamente superiores às vantagens que tal construção possa vir a trazer.” (…) O Comunicado refere ainda o envio de telegramas para o Conselho da Revolução (criado a 12 de março de 1975), Companhia Portuguesa de Eletricidade, Primeiro-ministro e Ministério da Indústria e Tecnologia e para Governador Civil de Leiria, no dia 5 de março, onde já mencionada o apoio do povo de concelho de Peniche e concelhos limítrofes:

 

“ – Considerando que não houve qualquer tomada de posição por parte das entidades (Conselho da Revolução, Companhia Portuguesa de Electricidade, Primeiro Ministro e Ministério da Indústria e Tecnologia, Governador Civil de Leiria) a quem foram enviadas pela população de Ferrel em 5 do corrente mês telegramas com o seguinte texto:

«A POPULAÇÃO DE FERREL APOIADA POVO CONCELHO PENICHE E CONCELHOS LIMITROFES (ÓBIDOS, BOMBARRAL, CALDAS, LOURINHÃ E TORRES VEDRAS) PROTESTAM CONTRA INSTALAÇAO CENTRAL NUCLEAR E LUTARA POR TODOS OS MEIOS LEGAIS CONTRA SUA CONSTRUÇAO – COMISSAO DE MORADORES DE FERREL»” 

Assim a população decidiu: “ 1) Mandar parar os trabalhos como primeira medida para evitar a sua instalação. 2) Caso os trabalhos recomecem a população de Ferrel e todas as outras vizinhas, tomarão as medidas que considerem necessárias. 3) Criticar os Orgãos de Informação (Rádiodifusão e R.T.P.) por terem recebido e não terem divulgado o telegrama acima mencionado.

Constituiu-se também uma Comissão que terá como finalidade a divulgação da luta das povoações e contribuir para o alargamento do movimento Anti-Nuclear. Já existem núcleos do Movimento Anti-Nuclear nos Concelhos das Caldas da Rainha, Bombarral e Peniche.” 

A marcha do dia 15 de março de 1976, na qual o Povo de Ferrel avança sobre os terrenos onde já estavam a ser construídas as estruturas da futura central, constitui a primeira forma de luta efetiva contra a opção pela energia nuclear em Portugal. A comunicação social dedica grande parte da sua produção noticiosa ao debate em torno das questões que se levantam perante esta opção energética. E pela primeira vez na sociedade contemporânea portuguesa pós-25 de abril o ambiente surge como um problema social.

A mobilização cívica, as diversas ações de luta e o apoio para com o Povo de Ferrel formaram uma importante força contra os lóbis da energia nuclear em Portugal, num período sensível e decisivo para a democratização do país.

Até aqui o assunto estava circunscrito à academia, aos técnicos e aos movimentos ambientalistas. Criaram-se condições objetivas para a massificação da luta antinuclear entre as populações locais.

«Estávamos assim a entrar no terceiro e último ponto da nossa luta. A partir de agora a luta não era só do Povo de Ferrel, não era só do concelho de Peniche, nem do distrito de Leiria… Era de Portugal inteiro!»

Testemunho de Joaquim da Silva Jorge, membro da Comissão de Moradores de Ferrel e da CALCAN, Ferrel, 2016.

Rapidamente o problema do povo de Ferrel torna-se um problema de dimensao nacional. Afonso Cautela escreve «Face às centrais nucleares, somos todos moradores de Ferrel, Ferrel é Portugal inteiro, e o mundo todo. Ferrel é já a trincheira que separará os portugueses em dois novos «partidos»: o partido da Morte e, do outro lado, do lado dos moradores de Ferrel, o partido da Vida. Ferrel já tem a sua CALCAN mas é bom que por todo o país a ameaça nuclear encontre uma frente unida de partidários da Vida.” 

«A História da luta do povo de Ferrel contra a central nuclear, sobretudo as memórias da marcha de 15 de Março de 1976 e do I Festival Pela Vida Contra a Central Nuclear, deram origem a diversas formas de expressão cultural. Uma memória colectiva materializada numa pintura mural (da Bruxa), na obra de romance e ficção de Mariano Calado intitulada A Maldição das Bruxas de Ferrel, no boletim distribuído pela Junta de Freguesia de Ferrel «O Nuclear», nos poemas de autores locais, sem esquecer a canção de Fausto “Rosalinda (Se tu fores ver o mar)”, de 1976, a primeira canção ecologista em Portugal.

No Ano Europeu do Património Cultural 2018, assinalamos os 40 anos do I Festival Pela Vida Contra a Central Nuclear, que decorreu nas Caldas da Rainha e em Ferrel nos dias 20 e 21 de Janeiro de 1978. No âmbito de uma estratégia para o Património no século XXI, de uma abordagem transdisciplinar, o Património histórico-cultural de Ferrel constitui um elemento diferenciador e um contributo relevante para o desenvolvimento local.

Reconhecendo a importância deste património histórico e cultural de Ferrel, para a valorização do território e para autoestima das gentes desta vila, a Associação PATRIMONIUM – Centro de Estudos e Defesa do Património da Região de Peniche tem vindo a realizar um trabalho de investigação histórica sobre a História da luta do povo de Ferrel contra a central nuclear. A Junta de Freguesia de Ferrel tem vindo a colaborar de forma empenhada com a associação PATRIMONIUM – Centro de Estudos e de Defesa do Património da Região de Peniche, no sentido de aprofundar a investigação histórica da Luta do Povo de Ferrel contra a central nuclear, assim como no desenvolvimento de forma inovadora de valorização e salvaguarda do Património local.» 

Não fossem as conquistas da Democracia e a mobilização social, o concelho de Peniche teria certamente que viver com a ameaça de uma central nuclear.

Documentos

Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável, Resolução adotada a 25 de setembro de 2015;

Ano Europeu do Património Cultural, Decisão (UE) 2017/864 do Parlamento Europeu e do Conselho de 17 de maio de 2017;

Comunicado [À População], Moinho Velho, 15 de março de 1976.

 

Periódicos

A Voz do Mar;

BALUARTE;

Gazeta das Caldas;

Frente Ecológica;

O Século.

 

Webgrafia

https://gazetacaldas.com/sociedade/ferrel-quer-usar-luta-central-nuclear-factor-desenvolvimento/

https://ejatlas.org/conflict/nuclear-power-station-in-ferrel-peniche-portugal

 

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Nuno, A construção do ambiente como problema social: Anos 70 – Anos 90, Dissertação doutoramento, FCSH-UNL, Lisboa, 2003;

ELOY, António (coord.), Almaraz e outras coisas más, Cooperativa Editorial Caldense, CRL, Caldas da Rainha, dezembro 2017;

LOURENÇO, Inês, «Ferrel Contra o Nuclear – 15 de março de 1976», Comunicação apresentada do III Congresso de História do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UNL, Lisboa, 5 de maio de 2017, IHC-FCSH/UNL (org.);

LOURENÇO, Inês, «Ferrel, Memória e Presente», Comunicação apresentada nas Jornadas Pela Vida e Contra o Nuclear – 40 anos do Festival, Caldas da Rainha, 20 de janeiro 2018, M.I.A., PATRIMONIUM e Gazeta das Caldas (org.);

MADEIRA, Bruno, «Não foi para morrer que nós nascemos» - O movimento ecológico do Porto, universidade do Porto, Dissertação de mestrado – História Contemporânea, 2016;

RODRIGUES, Eugénia, Novos Movimentos Sociais e o Associativismo Ambientalista em Portugal, Nº 60, Oficina do CES – Centro de Estudos Sociais, Coimbra, setembro de 1995;

SCHMIDT, L., Portugal Ambiental, Casos & Causas, Oeiras, Celta Editores, 1999;

 

TAVARES, Bruno Ribeiro, O ambiente e as políticas ambientais em Portugal: contributos para uma abordagem histórica, Dissertação de mestrado, Universidade Aberta, 2013.

 



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